Silverstone, eu fui
Carlos Henrique Moyna, amigo de longa data, foi assistir ao GP da Inglaterra deste ano in loco. E resolveu mandar um depoimento do que viu em Silverstone. Leitura altamente recomendada. Com vocês: Moyna, o pé de chumbo.

Foto: Carlos Henrique Moyna
É moda hoje esse negócio de “coisas a fazer antes de morrer”, ou “to do list”, ou ainda mais tragicamente o que os gringos chamam de “bucket list”. Na minha, desde garoto, tem assistir o GP de Mônaco no Principado. Este ano, como sou um cara flexível, transferi esse item para o fim da lista. Não, não fui ocupar um dos milhares de lugares vazios em Monte Carlo. Tradição por tradição, aproveitei uma coincidência de datas e resolvi aproveitar minha passagem pelas ilhas para assistir ao que pode ser o último GP Britânico (e não da Inglaterra), que deve ser substituído por alguma corrida em Ouagadugu ou Sanaa, quem quer que pague mais. E, se nas últimas corridas o público tem sido arredio, em Silverstone foram mais de 300 mil pessoas em três dias, lotando o velho aeroporto.
Depois da tensão de não saber se ia encontrar os ingressos na recepção do hotel no sábado antes da corrida, madruguei para pegar o coach que nos levaria até Silverstone. O trem seria uma opção mais barata, mas eu perderia todas as corridas preliminares. Nos atrasamos por culpa da insuspeitada falha dos ônibus londrinos em cumprir horários e tivemos que pegar um taxi até o ponto de partida. Chegamos a tempo de ainda comprar um lanchinho pra viagem e tomamos o ônibus cheio de espanhóis, japoneses e alemães. Dormi a maior parte dos 100 quilômetros do caminho e só acordei quando já saíamos da M1. O tempo não podia ser mais inglês: vento frio e céu nublado. Baita verão! Desembarcamos atrás das arquibancadas da Woodcote e já se ouviam os motores da molecada da F-BMW saindo dos boxes.
Já entramos pela área dos quiosques, para perder mais algum dinheirinho. Nada muito diferente de qualquer outro autódromo, exceto que o stand da Ferrari era o mais vazio. Obviamente o que se via era um mar de bonezinhos “marca texto” do Button, misturados a centenas de outros “rocket red” do Lewis. Apesar do mico total do campeão e do relativo fracasso do líder atual do campeonato nos treinos de sábado, a turma era só otimismo. Sempre disseram que a torcida inglesa era volúvel e ninguém ali parecia lembrar que o queridinho do momento nem era mencionado há um ano. Meu filho tinha resolvido desde a partida do Brasil que ia comprar mais um boné do Button para sua coleção, mas achou o produto meio vagabundo e decidiu apostar no alemãozinho que ia largar na pole. Realmente os produtos da Red Bull matam a pau.
Nossos ingressos eram Free Admission, ou seja, para a “geral”, coisa que aqui em Interlagos não existe. Lá existe essas “populares”, além de permitirem acampamento nas redondezas. O problema é que a inglesada é bem mais preparada e já tinha enchido todos os melhores lugares junto ao alambrado com suas cadeiras de lona. Resolvi ficar na saída da Copse para ver a curva que sempre me arrepiou na TV e dali ainda dava pra ver quem saía dos boxes. Além disso tínhamos telão (Silverstone TV, com comentaristas diferentes da BBC), lanchonetes e banheiro. Mais ou menos o que temos por aqui, mas bem mais civilizado. O podrão mata, o banheiro fede e tem fila, mas as pessoas dizem toda hora “sorry, sorry”. Sim, também tem uns palhaços fantasiados e bêbados (Batman e Robin etc.), mas nada comparado aos pentelhos do Setor G.
Primeiro rolou a F-BMW da molecada, com boa atuação do Nasr, depois a GP2, com atuação fraca do Valério, vencedor de sábado, e ridícula do di Grassi (The Grass, pelas rodadas). A sensação daqueles carros fazendo a Copse no talo e o ronco dos que trepavam os pneus na zebra realmente… Intervalo na velocidade e tempo de homenagens: primeiro a parada dos pilotos e umas voltinhas do F1 biplace com alguma “celeb” felizarda, acho que a filha de ser Sir Mick Jagger, e em seguida o deleite de ver a Matra-Ford pilotada por Sir Jackie roncar o velho Cosworth. Ainda havia vários Sir’s presentes, dentre eles Sir Stirling e Sir Richard Branson. Não, Mosley não é Sir Max… ainda! Como última atração antes da corrida, um mega show aéreo com os Red Arrows. Inglês adora corridas de carros e aviões (e eu também), porque não juntar os dois?
Pronto, chega de rolo e bota os carrinhos pra correr, Tio Bernie! Esqueçam a politicagem e vamos ver corrida. Bem, na verdade corrida só do décimo para trás. O Vettel nem tocava a zebra da Copse de tão mais rápido que estava. O prazer era só em ver os carros contornando aquela curva a quase 300 como se estivessem colados no chão. Os ingleses, então, estavam meio cabisbaixos. Jenson preso atrás de Toyotas e Lewis na grama. Tudo bem, o atual campeão é deles e o futuro também. Diferente daqui, ninguém foi embora antes do fim da corrida porque “os nossos garotos” estavam lá atrás. No final, venceu o “cavalo” em meu filho tinha apostado (meio previsível) e os ingleses acertaram o hino da Red Bull. Eles são bons nisso também.
Para finalizar, outro deleite: o Desafio de Carros Históricos, com Lolas, Jaguars, Lotus, Cobras, além de uma sensacional Ferrari 512 e seu ronco inconfundível e uma GT40 (original). Como tínhamos tempo até a partida do ônibus, “penetramos” nas arquibancadas da Copse, com a simpática condescendência do funcionário inglês. Quem disse que jeitinho e simpatia são coisa nossa? No caminho para o estacionamento, mais uma surpresinha: uma exibição alucinante do Typhoon, ou Eurofighter. Os ingleses e seus brinquedos…
O que restava era enfrentar a volta, muito mais lenta que a ida, quase 3 horas e meia. Não fez diferença, porque dormi até a Victoria Station.
O que dizer então da infra do autódromo? Motivo de curiosidade minha e de crítica do Ecclestone, além de desculpa para tirar o GP dali e entregar na mão de um aventureiro que comprou Donington, pode ser a razão para tão cedo não haver corrida na Meca do automobilismo. Será que é tão mambembe assim? Achei tudo arrumadinho, limpo e funcional. Nada moderno, mas não deve ser pior que qualquer autódromo europeu. Comparado com Interlagos, que está cada ano mais bonito, achei o acesso muito mais fácil (descontando a viagem de mais de uma hora). Se tivesse comprado arquibancada, tenho certeza que teria mais conforto que aqui, como verifiquei quando invadi a da Copse. A torcida inglesa mandou sua mensagem, e num ano de fracassos de bilheteria, lotou a casa, apesar dos ingressos mais caros da temporada.
No final, Bernie já falava em outro tom, ciente de que a opção de Donington é cavalo manco e tirar a corrida do seu templo é um tiro no pé.
Eu, da minha parte, posso agora adiar meus planos de ir a Mônaco. Vou começar a investir em voar num Spitfire.
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Você também pode conferir uma galeria de fotos do GP no blog Pé de Chumbo. Vale a pena.


(18 avaliações, média de 4,39/5)














6 de julho de 2009 às 18:52
deve ser legal ir a uma corrida de F1 ainda mais em Silverstone.
legal.
6 de julho de 2009 às 19:36
quem ja assistiu corrida no setor g em interlagos sabe disso,
esse foi o melhor comentario de todos:
“Sim, também tem uns palhaços fantasiados e bêbados (Batman e Robin etc.), mas nada comparado aos pentelhos do Setor G.”
haehauheuaehuaeh
uiaheuaheuhaeuhaeuhaeuhaeuhae
mto bom!
6 de julho de 2009 às 20:42
Moyna é um grande cara, entendedor da matéria, certamente curtiu pra valer a experiência. O cara, ainda por cima, faz aniversário no mesmo dia do Sebastian Vettel!
6 de julho de 2009 às 22:19
Eu tive o privilégio de ver as fotos e ouvir os depoimentos do Moyna em primeira mão. Isso é claro, regado a umas doses de whisky irlandês. O cara é um escroto, mas fazer o quê? Amigo é amigo…
7 de julho de 2009 às 13:31
Você dá intimidade e olha o que acontece… BTW, já corrigi uns errinhos de português no PdC.
:-P
7 de julho de 2009 às 13:32
Invejinha, invejinha…
Parabéns.
8 de julho de 2009 às 11:05
Também estive em Silverstone no fds do GP. Experiência única!
Mesmo com a corrida em si tendo sido bem morna, o evento em si é totalmente diferente do que temos aqui no Brasil. Em primeiro lugar, muita gente acampa perto do autódromo… por onde vc anda vc trailers e barracas, é uma verdadeira festa! Outra coisa muito interessante é que o público, mesmo puxando a sardinha pro lado dos ingleses, gosta mesmo é de corrida de carro e eles entendem muito, sabem o nome dos pilotos, dos carros, quem está bem no campeonato, etc…
Depois da corrida rolou o evento que mais me impressionou, a F1 party, dentro do próprio autódromo e de graça. Esta festa contou com a apresentação da banda do Eddie Jordan e com a presença de vários pilotos, que iam até o placo e davam uma entrevista rápida para o apresentador…. E eu estava lá, mais ou menos à 100 metros do palco, vendo pilotos como: Stiling Moss, Jackie Stwart, Coultard, Martin Brundle, Hamilton, Vettel, Weber, Piquet Jr, Nakagima, Button, Barrichello…. aliás, a festa que o pessoal fez para o Barrichello talvez tenha sido maior do que para Hamilton e Button… fiquei impressionado!
Enfim, um show de organização e de respeito com o público.
8 de julho de 2009 às 19:53
Ainda não tive esse prazer de poder assistir ao vivo um corrida de F1, mas espero em breve poder também sentir essa emoção, abraço a todos.